O valor de um território
por Daniela Filomeno, jornalista e apresentadora do CNN Viagem & Gastronomia
Durante muito tempo, acreditamos que a resposta estava na paisagem. Depois vieram os grandes hotéis, as boutiques, os restaurantes premiados… Claro, tudo isso continua tendo seu valor. Mas percebo, cada vez mais, que aquilo que realmente permanece na memória precisa de uma conexão mais profunda: da identidade de um território. Escuto muito terroir quando falamos de identidade.
Ainda mais comum é associarmos a palavra terroir apenas ao universo do vinho. Para mim, o conceito vai além do agrícola. Sim, um lugar é formado por sua geografia, seu clima, mas também pelas suas tradições, saberes transmitidos entre gerações e comunidades. E isso tem um fator em comum: pessoas. Sem essa conexão, qualquer experiência vira apenas um cenário bem produzido.
Nos últimos anos, tenho buscado essa autenticidade. Ela apareceu em um pequeno produtor de queijo nos Alpes, em uma vinícola familiar em Mendoza, em uma comunidade ribeirinha na Amazônia ou ao lado de um produtor de cacau no sul da Bahia. Todos eles ofereciam algo que nenhum roteiro tradicional consegue entregar: contexto compartilhado por quem vive, preserva e constrói diariamente a identidade daquele território.
Quando entendemos quem produz, como produz e por que aquilo só pode existir naquele lugar, a viagem ganha outra dimensão. O destino deixa de ser um cenário e passa a contar uma história.
Talvez seja por isso que as experiências mais marcantes da minha trajetória quase nunca tenham acontecido diante de um cartão-postal. Elas nasceram em conversas com pescadores, agricultores, chefs, artesãos, pesquisadores, guias e famílias que dedicam a vida a preservar tradições. São essas pessoas que traduzem esse legado.
O Brasil possui uma riqueza extraordinária nesse sentido. Da Serra da Mantiqueira ao Pantanal, da Amazônia ao Cerrado, do sertão nordestino às regiões produtoras de café, vinho, queijo, mel e tantos outros insumos, existe um patrimônio cultural que ainda estamos aprendendo a reconhecer como um dos nossos maiores ativos turísticos.
Durante muito tempo promovemos nossos destinos pela beleza natural. Hoje, acredito que nosso maior diferencial esteja na capacidade de revelar as histórias que existem por trás de cada paisagem.
Porque o que não se replica são as memórias, os sabores, os sotaques, os modos de fazer e a relação construída entre uma comunidade e o lugar onde ela vive. É isso que torna um destino verdadeiramente único.
Viajar, no fim das contas, nunca foi apenas sobre os lugares por onde passamos. É sobre as histórias, os aprendizados e os encontros que levamos conosco. Quando essa troca acontece, todos saem transformados: o viajante leva um pedaço daquele território, e o território também ganha um novo guardião de sua história.
Publicado originalmente na revista Versatille, ed. 142.
