O novo luxo é viajar sem pressa
por Daniela Filomeno, jornalista e apresentadora do CNN Viagem & Gastronomia
Vivemos tempos tão corridos que o simples ato de respirar fundo e observar a paisagem pela janela se tornou uma forma de descoberta. Neste contexto, as viagens surgem, ou deveriam surgir, como um escape para novos horizontes regadas a calmaria, luxos cada vez mais raros.
Ultimamente, tenho feito viagens com um outro olhar. Faço parte de um grupo crescente de viajantes que também busca destinos fora dos circuitos tradicionais. A procura por autenticidade e imersão cultural são o novo luxo em viagens. E existe um modo de viajar que entrega exatamente isso: o cruzeiro fluvial.
Recentemente, realizei duas jornadas pelo Rio Danúbio, cujas águas ajudaram a moldar reinos, delimitar fronteiras e escrever boa parte da história da Europa Central. Bem menores que os cruzeiros marítimos, os fluviais já partem do pressuposto de que menos é mais: menos acomodações, menos pessoas e destinos ainda pouco desbravados, longe dos grandes portos que os navios gigantes exigem. Assim, revelam um cenário que vai além dos grandes centros e proporcionam mais profundidade aos múltiplos destinos visitados.
Uma das grandes diferenças em relação ao alto-mar é a suavidade da experiência. A embarcação não balança. Navega em silêncio e desliza com delicadeza ao lado de fortalezas, vilarejos medievais e vinhedos históricos. Atracamos no centro das cidades, muitas delas pequenas joias ainda pouco conhecidas, perfeitas para serem percorridas a pé.
A bordo, temos o conforto de um hotel flutuante e, ao mesmo tempo, a chance de conhecermos diversos destinos em um único roteiro, acordando um dia em Belgrado e, no outro, em Budapeste, por exemplo. A mala fica no mesmo lugar. O cenário, não.
Com mais de duas décadas navegando pela Europa, a AmaWaterways é uma das empresas mais consolidadas do setor e a escolhida para minhas duas últimas viagens. Os navios não passam de 100 cabines e, nos terraços, piscina aquecida e hidromassagem ajudam a relaxar enquanto a paisagem desfila do lado de fora. A equipe nos chama pelo nome e a gastronomia dialoga com cada parada. Refeições, bebidas e excursões estão incluídas. Toda a programação pode ser montada pelo aplicativo antes mesmo de embarcarmos.
Os roteiros duram, em média, sete dias. Nas travessias que fiz, cada parada trouxe uma surpresa. Ao longo do Danúbio, vilarejos que parecem saídos de um conto de fadas surgem na curva seguinte. Na rota pelo trecho mais oriental do rio, da Romênia à Hungria, fiquei fascinada com a vibrante Belgrado, capital da Sérvia, e com a emocionante Vukovar, símbolo de resistência na Croácia.
No outro trajeto, dessa vez da Hungria à Alemanha, foram mais de 600 quilômetros por cinco países, que entregaram um mix moderno e medieval, incluindo vinhedos e abadias no Vale de Wachau, patrimônio mundial na Áustria.
O que torna a experiência especial é justamente o equilíbrio. Não se trata de uma imersão exaustiva nem um turismo superficial. É uma jornada que mistura profundidade com leveza e cultura com descontração. Para os brasileiros que querem embarcar nesse universo, uma boa notícia: a AmaWaterways também desenha saídas pensadas especialmente para nós, em português, tornando tudo mais acolhedor.
Publicado originalmente na revista Versatille, ed. 141, coluna Boarding Pass.
